O projeto Façamos Nós Mesmos | RBAC fellowship 2019

By 30 de julho de 2020Sem categoria

Em 2019, o projeto Façamos Nós Mesmos ficou entre os sete escolhidos para fazer parte do programa de fellowship do Desafio de Aprendizagem Criativa deste ano. A proposta inicial era criar ambientes nos quais educadores pudessem vivenciar atividades estimulantes e experimentar metodologias que favorecessem o aprender fazendo (design thinking, maker-centered learning, challenge-based learning e project-based learning), e dar suporte a educadores que desejassem planejar suas próprias atividades mão-na-massa. Conduzidos por Mitch Resnick, mergulhamos ainda mais profundamente na obra de Seymour Papert, matemático que trabalhou ao lado de Jean Piaget por anos e foi um dos primeiros a advogar pelo uso de tecnologia digital na educação, de forma criativa. Segundo Resnick (2018), Papert sustenta que o aprendizado acontece melhor quando os aprendizes trabalham diretamente com alguma “mídia manipulável” – Lego©, argila, aplicativos, blocos de código, máquinas de prototipagem rápida ou até mesmo recicláveis. Ele deixa clara a relação entre o construtivismo e construcionismo ao enfatizar a importância de os alunos tornarem seu aprendizado visível, trabalhando sempre com projetos tangíveis, combinados com uma inclinação para compartilhamento dessas ideias e projetos. Resnick se inspira no trabalho de Papert e explora o tema criatividade no uso de tecnologias e manipuláveis. Ele ilustrou seu pensamento com a Espiral de Aprendizagem Criativa (figura abaixo) – uma representação visual do pensamento criativo em ação durante uma atividade de Aprendizagem Criativa (AC).

Através de seu trabalho inovador no MIT Media Lab, ele contribui enormemente para nosso entendimento conceitual de dinâmicas de AC e sua importância para a educação. Resnick e sua equipe desenvolvem programas, dispositivos e atividades que catalisam as capacidades criativas. Ele critica modelos tradicionais de ensino e descreve como os seus alunos no MIT Media Lab passam muito pouco tempo na sala de aula. Em vez disso, eles trabalham constantemente em projetos, guiados pela Espiral da Aprendizagem Criativa. Os alunos constroem protótipos rapidamente, brincam com eles, testam, compartilham e refletem sobre o que aprenderam. Em seguida, imaginam possibilidades de melhorias e engajam na construção da próxima versão do protótipo. Em seu livro O Jardim de Infância para a Vida Toda, Resnick (2020) relata como se sente atraído pelo movimento do fazer (maker movement), por diferentes razões. Diz acreditar não no potencial de ser um movimento econômico ou mesmo tecnológico, mas de ser um movimento em favor da Educação, pois o movimento do fazer abre oportunidades para novas maneiras de aprender e se engajar em experiências criativas. Afinal, quando pessoas criam artefatos e soluções, elas usam os materiais disponíveis (argila, blocos de programação, Legos©, tintas, etc.) para desenvolver a criatividade. Resnick diz que a aprendizagem mais valiosa é aquela na qual você está ativamente engajado no design, na construção e na criação de algo. Para nossa equipe, o fato da essência conceitual da AC estar fortemente ancorada na obra de Resnick, que trabalhou lado a lado com Papert no MIT Media Lab, facilitou o entendimento dos conceitos da AC. Tivemos algumas oportunidades de experienciar atividades alinhadas com a filosofia da AC. Uma delas foi a oficina Aldeia Criativa, durante o 3o Festival de Invenção e Criatividade. Na oficina, os participantes são convidados a criar uma “aldeia”. Cada um mergulha diretamente na tarefa, mão-na-massa, e fica evidente a evolução da Espiral da Aprendizagem Criativa. Primeiramente, os participantes imaginam como seria a aldeia, ao manipular e brincar com os materiais disponíveis. Logo em seguida, os participantes compartilham suas ideias e refletem sobre como as pessoas irão interagir nesse ambiente criado e como ele poderia ser melhorado. Essa reflexão leva a imaginar como poderia ser diferente e o ciclo recomeça.

Narrativa Thomas Maker de Aprendizagem Criativa

Como primeira versão do trabalho final do projeto Façamos Nós Mesmos – uma narrativa de AC -, submetemos uma abordagem com dois objetivos pedagógicos centrais: desenvolver competências linguísticas e entregar conteúdo – Content Based Language Instruction (CLIL). Neste tipo de aula, geralmente desenhada por professores com treinamento formal em English Language Teaching (ELT), o professor tem dois objetivos: o conteúdo programático multidisciplinar e a língua Inglesa. Para que os objetivos pedagógicos sejam alcançados, o professor muitas vezes tem uma abordagem lexical – trabalha em um ciclo progressivo, construindo a capacidade dos alunos de aprofundar nos conteúdos através do uso regular da língua inglesa. As aulas precisam ser cuidadosamente pensadas, pois uma atividade capacita os alunos linguisticamente para desempenhar bem a atividade seguinte. Aulas CLIL não são necessariamente sempre mão-na-massa. O professor pode usar textos e imagens para avançar o entendimento e apropriação por parte do aluno da língua e do componente multidisciplinar sendo tratado. No entanto, na narrativa submetida pelo Thomas Maker, oferecemos uma alternativa de abordagem maker-centered learning (MCL), ao tratarmos do tema eletricidade de forma experiencial, e fazer uso de alguns dos protocolos e rotinas de pensamento sugeridos pelo Project Zero. O plano de aula sugere, ao abrir uma nova unidade, a construção de um micromundo. Para uma unidade sobre eletricidade, por exemplo, a narrativa sugere que educadores transformem algum ambiente da escola em uma experiência divertida e encantadora. Artefatos como luzes de LED que piscam, brinquedos elétricos que se movimentam, plasma e luzes que brilham e acendem e apagam em sequência podem ser usados para garantir o efeito “uau”. Em seguida, a aula transita para a fase conhecida por profissionais de ELT como Lead-In, que traduzimos como “Ativação”. Esse tipo de atividade objetiva despertar a curiosidade e aproximar o aluno do tema da aula. Vale ressaltar neste ponto que, em aulas CLIL, é prática essencial levantar o conhecimento prévio do aluno (schemata), tanto do conteúdo como da capacidade linguística de se expressar e expandir o conhecimento, fazendo uso da língua estrangeira que se está aprendendo. Existem diversas maneiras de ativações. Por exemplo, pode-se fazer uma entrevista, contar uma história ou propor um desafio. No caso da narrativa enviada, a ativação sugere que o professor inicie um jogo de Kahoot com questões básicas sobre eletricidade. O Kahoot é cuidadosamente desenhado pelo professor de forma a fornecer suporte linguístico aos alunos. A aula segue com o uso da Rotina de Pensamento Partes, Propósitos e Complexidades (para “olhar de perto”), para que alunos vejam um circuito fechado, aprendam a falar sobre ele e comecem a pensar em hipóteses sobre o que está acontecendo e porque. A aula segue com uma sequência de atividades por meio das quais os alunos começam a desenvolver as habilidades necessárias para lidar com a imprevisibilidade de mexer com materiais no mundo físico usando a língua inglesa.

Acesse a primeira versão da sequência didática Eletricidade em Meus Brinquedos.

O Feedback

Após o envio da nossa narrativa, tivemos uma sessão de feedback com Ann Valente, responsável pelo acompanhamento e processo iterativo pelos quais todos os fellows passaram durante a elaboração da narrativa de AC. Durante duas horas de conversa, nossa mentora provocou reflexões sobre algumas questões importantes. O principal questionamento dizia respeito à maneira que optamos para ativar a atividade (lead in). Vale ressaltar que a trilha submetida era para alunos que estavam aprendendo em um contexto CLIL, prática ainda não consolidada na prática de ensino de língua estrangeira no Brasil. O uso do Kahoot e toda a preocupação com a sequência didática acenderam um sinal de alerta para ela. Ann expressou sua preocupação e nos disse que toda esta estrutura poderia explicar conceitos antes de dar a chance para os alunos de experienciar a descoberta por eles mesmos. A conversa com a Ann nos fez perceber que talvez deveríamos propor na fase inicial da atividade de AC, que o grupo fosse logo apresentado à oportunidade de interagir com materiais diversos e usar a imaginação livremente.

Veja a versão final pós feedback da sequência didática Eletricidade em Meus Carrinhos

A segunda versão | iteração

Para a construção da segunda versão tomamos duas decisões importantes. Primeiramente, abrimos mão do Kahoot e da rotina de pensamento inicial. Eliminamos a barreira linguística e reescrevemos a narrativa para o ensino de português, tecnologia e ciências no Ensino Fundamental 1. Por último, baseamos a atividade na seguinte pergunta norteadora:

Como podemos promover diferentes formas 

de envolvimento positivo, 

entre pessoas trabalhando juntas 

para resolver um desafio?

Resolvemos fazer uso da Escada do Feedback (ladder of feedback) (Figura 3), um protocolo do projeto – Fazer o Pensamento Visível (MLV) de Harvard, que ajuda estabelecer uma cultura de confiança e suporte, sequenciando o feedback em ordem construtiva. Ao compartilhar os seus projetos, participantes e facilitadores foram estimulados a usar algumas das frases iniciadoras:

  • ESCLAREÇA – faça perguntas que esclareçam bem a ideia para você.
  • VALORIZE – expresse o que gostou, justificando o porquê. “Eu gostei muito de… porque…”. Não ofereça um “bom, mas” superficial e corra para os negativos.
  • MANIFESTE PREOCUPAÇÕES – manifeste suas preocupações de maneira amigável. “Eu me pergunto se…”; “Me parece que…”; Gostaria de saber se…”.
  • SUGIRA – faça sugestões de melhorias. “Que tal…”; “E se você…”.

Testando a segunda versão

Testamos a trilha durante o 38o Simpósio de Centros Binacionais, em Manaus para uma audiência composta de educadores, bibliotecários, equipes de Makerspaces e diretores de Centros Binacionais (BNCs). Ao final da oficina, pedimos a alguns dos participantes que compartilhassem suas fotos e reflexões sobre momentos interessantes ou mudanças importantes no processo de aprendizagem e o que aprenderam sobre eletricidade para nos ajudar a entender como melhorar enquanto designers de narrativas de AC. Para nós do Thomas Maker ficou claro que precisamos ser educadores  críticos e muito bem informados. Entendemos que muitas vezes nós professores precisamos  didatizar a nossa prática pedagógica dado ao sistema educacional no qual muitos estamos inseridos. Acreditamos ser essencial  aumentar o nosso repertório no que diz respeito a metodologias e ferramentas pois isso nos dá a oportunidade de praticar a nossa  capacidade de escolher com criticidade os caminhos mais adequados para cada situação/caso, tendo como foco os alunos.

Nossas Reflexões 

Nós professores estamos familiarizados com as noções de modelagem. Modelamos o uso de um pronome ou fórmula matemática no quadro. Infelizmente, desta maneira, simplesmente mantemos viva a cultura “Agora observe-me e mostrarei a você“. Para vencer paradigmas e ressignificar a maneira que ensinamos, precisamos ressignificar também a maneira que aprendemos e modelar como somos enquanto aprendizes. Os alunos percebem se um professor é apaixonado por um tema, interessado em ideias, envolvido, reflexivo e deliberativo.

Para darmos um salto qualitativo no nível de discussão que queremos manter, podemos usar protocolos como as TRs, tornando nosso pensamento visível e aproximando pessoas de ideias, metodologias e tecnologias. Acreditamos que o Equalizador da Inteligência Maker, tecnologia educacional desenhada pela equipe do Thomas Maker, possa ajudar a fazer isso em relação ao MCL. Desenvolvemos também uma  ferramenta para a Aprendizagem Criativa para aumentar a nossa capacidade de discussão e reflexão e como AC se relaciona com outras metodologias. A nossa intenção é  o desenvolvimento coletivo da metalinguagem necessária para conversarmos sobre com Aprendizagem Criativa e como ela pode ajudar alunos a desenvolver todo seu potencial.

Referências

CLAPP, Edward P.; ROSS, Jessica; RYAN, Jennifer O.; TISHMAN, Shari. Maker-centered learning: empowering young people to shape their worlds. [s.L.] : John Willey & Sons, 2016. 256 p.

KRECHEVSKY, Mara; MARDELL, Ben; RIVARD, Melissa. Visible learners: promoting Reggio-inspired approaches in all schools. [s.L.] : Jossey-Bass, 2016. 185 p.

RESNICK, Mitchel. Lifelong kindergarten: cultivating creativity through projects, passion, peers, and play. Boston: MIT, 2018. 208 p.

RITCHHART, Ron. Creating cultures of thinking: the 8 forces we must master to truly transform our schools. [s.L.] : Jossey-Bass, 2015. 384 p.

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